quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

MEMÓRIA DE MINHAS PUTAS TRISTES, de Gabriel García Márquez



1

"Também a moral é uma questão de tempo, [...]"
p. 07

2

"Nunca fiz nada diferente de escrever, mas não tenho vocação nem virtude de narrador, ignoro por completo as leis da composição dramática, e se embarquei nessa missão é porque confio na luz do muito que li pela vida afora. Dito às claras e às secas, sou da raça sem méritos nem brilho, que não teria nada a legar aos seus sobreviventes se não fossem os fatos que me proponho a narrar do jeito que conseguir nesta memória do meu grande amor."
p. 11

3

"Nessa época ouvi dizer que o primeiro sintoma da velhice é quando a gente começa a se parecer com o próprio pai. [...] A verdade é que as primeiras mudanças são tão lentas que mal se notam, e a gente continua se vendo por dentro como sempre foi, mas de fora os outros reparam."
p. 13

4

"As tempestuosas despedidas de solteiro que me faziam no Bairro Chinês iam na contramão dos serões opressivos do Club Social. Contraste que me serviu para saber qual dos dois mundos era na realidade o meu, e cheguei a ter a ilusão de que os dois eram porém cada um na sua hora, pois de qualquer dos dois eu via o outro se afastar com os suspiros dilacerados com que se separam os barcos em alto-mar."
p. 43

5

"O mundo avança. Sim, respondi, avança, mas dando voltas ao redor do sol." 
p. 45


6

"[...], e senti na garganta o nó górdio de todos os amores que puderam ter sido e não foram."
p. 61


7

"Por que você me conheceu tão velho? Respondi com a verdade: A idade não é a que a gente tem, mas a que a gente sente."
p. 68


8

"Incrível: vendo-a e tocando-a em carne e osso, me parecia menos real que em minhas lembranças."
p. 71

9

"Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza."
p. 74

10

" - Não se engane: os loucos mansos se antecipam ao porvir."
p. 76

11

"Antes de voltar para casa no dia seguinte escrevi no espelho com o batom: Minha menina, estamos sozinhos no mundo."
p. 80

12

"Havia achado, sempre, que morrer de amor não era outra coisa além de uma licença poética. Naquela tarde, de regresso para casa outra vez, sem o gato e sem ela, comprovei que não apenas era possível, mas que eu mesmo, velho e sem ninguém, estava morrendo de amor. E também percebi que era válida a verdade contrária: não trocaria por nada neste mundo as delícias do meu desassossego."
p. 95

13

"Ainda enredado nas teias de aranha da noite tive coragem de ir no dia seguinte à fábrica de camisas onde Rosa Cabarcas havia dito uma vez que a menina trabalhava e pedi ao proprietário que me mostrasse as instalações para servir de modelo para um projeto continenal das Nações Unidas. Era um libanês paquidérmico e taciturno, que nos abriu as portas de seu reino com a ilusão de ser um exemplo universal."
p. 99

14

"Lendo Os idos de março encontrei uma frase sinistra que o autor atribui a Júlio César: É impossível não acabar sendo do jeito do jeito que os outros acreditam que você é. Não pude comprovar sua verdadeira origem na própria obra de Júlio César nem nas obras de seus biógrafos, de Suetônio a Carcopino, mas valeu a pena conhecê-la."
p. 107

15


"É que estou ficando velho, disse a ela. Já ficamos, suspirou ela. Acontece que a gente não sente por dentro, mas de fora todo mundo vê."
p. 109

16


"Olhou-me nos olhos, mediu minha reação ao que acabava de me contar, e disse: Então, vá correndo procurar essa pobre criatura mesmo que seja verdade o que dizem os seus ciúmes, não importa, o que você viveu ninguém rouba. Mas, isso sim, sem romanticismos de avô. Acorde a menina, fode ela até pelas orelhas com essa pica de burro com que o diabo premiou você pela sua covardia e mesquinhez. De verdade, terminou ela com a alma: não vá morrer sem experimentar a maravilha de trepar com amor."
p. 111

17


"Em cima do tampo de vidro que cobria a escrivaninha tinha aberto um dos enormes livros de apontamentos do arquivo onde estava o registro das jóias de minha mãe. Uma relação exata, com datas e detalhes de que ela em pessoa tinha mandado mudar as pedras de duas gerações de belas e dignas Cargamantos, e havia vendido as legítimas naquela mesma loja. Isso tinha acontecido quando o pai do atual proprietário estava à frente da joalheria, e ele e eu na escola. Mas ele mesmo me tranqüilizou: aquelas pequenas artimanhas eram de uso corrente entre as grandes famílias em desgraça, para resolver urgências de dinheiro sem sacrificar a honra. Diante da realidade crua, preferi conservá-las como lembrança de outra Florina de Dios que jamais conheci."
p. 117




Memória de minhas putas tristes / Gabriel Gracía Márquez. - Rio de Janeiro: Record, 2005.
ISBN: 85-01-07265-6  












Rodapé:




"El amor es el estado en el cual, la mayoría de las veces, el hombre ve las cosas como no son. Aquí se encuentra en su cumbre la fuerza ilusoria, lo mismo que la fuerza endulzadora, transfiguradora. En el amor se soportan más cosas que en cualquier otra situación, se tolera todo."

(NIETZSCHE, Friedrich. El Anticristo. Alianza Editorial: Madrid, 2006.)







dezembro de 2013 




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