segunda-feira, 21 de outubro de 2013

TODOS OS NOMES, de José Saramago


1

"[...], de facto não há nada que mais canse uma pessoa que ter de lutar, não com o seu próprio espírito, mas com uma abstração."
p. 27

2

"Em geral não se diz que uma decisão nos aparece, as pessoas são tão zelosas da sua identidade, por vaga que seja, e da sua autoridade, por pouca que tenham, que preferem dar-nos a entender que reflectiram antes de dar o último passo, que ponderaram os prós e os contras, que sopesaram as possibilidades e as alternativas, e que, ao cabo de um intenso trabalho mental, tomaram finalmente a decisão."
p. 41

3

"Aliás, se persistíssemos em afirmar que as nossas decisões somos nós que as tomamos, então teríamos de principiar por dilucidar, por discernir, por distinguir, quem é, em nós, aquele que tomou a decisão e aquele que depois a irá cumprir, operações impossíveis, onde as houver. Em rigor, não tomamos decisões, são as decisões que nos tomam a nós. A prova encontramo-la em que, levando a vida a executar sucessivamente os mais diversos actos, não fazemos preceder cada um deles de um período de reflexão, de avaliação, de cálculo, ao fim do qual, e só então, é que nos declararíamos em condições de decidir se iríamos almoçar, ou comprar o jornal, ou procurar a mulher desconhecida."
p. 42

4

"Nada é alheio, assim como todos os nomes estão na cabeça do seu chefe, assim o processo de uma pessoa é o processo de todas, [...]"
p. 63

5

"[...], Começarei por lhe perguntar se sabe quantas são as pessoas que existem num casamento, Duas, o homem e a mulher, Não senhor, no casamento existem três pessoas, há a mulher, há o homem, e há o que chamo a terceira pessoa, a mais importante, a pessoa que é constituída pelo homem e pela mulher juntos, Nunca tinha pensado nisso, Se um dos dois comete adultério, por exemplo, o mais ofendido, o que recebe o golpe mais fundo, por muito incrível que isto lhe pareça, não é o outro, mas esse outro outro que é o casal, não é o um, mas o dois, E pode-se viver realmente com esse feito de dois, a mim já me custa trabalho viver comigo mesmo, O mais comum no casamento é ver-se o homem ou a mulher, ou ambos, cada um por seu lado, a querer destruir esse terceiro que eles são, esse que resiste, esse que quer sobreviver seja como for, É uma aritmética demasiado complicada para mim, Case-se, arranje uma mulher, e depois me dirá, [...]" 
p. 63-4


6

"[...] seu espírito atento aos múltiplos sentidos das palavras que cautelosamente ia pronunciando, sobretudo aquelas que parecem ter um sentido só, com elas é que é preciso mais cuidado. Ao contrário do que em geral se crê, sentido e significado nunca foram a mesma coisa, o significado fica-se logo por aí, é directo, literal, explícito, fechado em si mesmo, unívoco, por assim dizer, ao passo que o sentido não é capaz de permanecer quieto, fervilha de sentidos segundos, terceiros e quartos, de direcções irradiantes que se vão dividindo e subdividindo em ramos e ramilhos, até se perderem de vista, o sentido de cada palavra parece-se com uma estrela quando se põe a projectar marés vivas pelo espaço fora, ventos cósmicos, perturbações magnéticas, aflições."
p. 134-5


7

"[...], Sim mas o que estás a ver de mim também é uma pele, aliás, a pele é tudo quanto queremos que os outros vejam de nós, por baixo dela nem nós próprios conseguimos saber quem somos, [...]"
p. 157


8

"[...], Homem, não tenhas medo, a escuridão em que estás metido aqui não é maior do que a que existe dentro do teu corpo, são duas escuridões separadas por uma pele, aposto que nunca tinhas pensado nisto, transportas todo o tempo de um lado para outro uma escuridão, e isso não te assusta, há bocado pouco faltou para que te pusesses aos gritos só porque imaginaste uns perigos, só porque te lembraste do pesadelo de quando eras pequeno, meu caro, tens de aprender a viver com a escuridão de dentro, [...]"
p. 177

9

"Que o tempo psicológico não corresponde ao tempo matemático, tinha-o aprendido o Sr. José da mesma maneira por que adquirira na sua vida alguns outros conhecimentos de diferente utilidade, [...] da efetiva possibilidade de medir esse tempo a que poderíamos chamar da alma, [...]"
p. 179

10

"[...], doze imagens diferentes da mesma cara, uma delas repetida, mas todas elas de cada vez mortas no passado, já mortas antes de ter morrido a mulher em que depois se tornaram, as velhas fotografias enganam muito, dão-nos a ilusão de que estamos vivos nelas, e não é certo, a pessoa para quem estamos a olhar já não existe, e ela, se pudesse ver-nos, não se reconheceria em nós, Quem será este que está a olhar para mim com cara de pena, diria, [...]"
p. 181

11

"[...], Repare-me bem neste trabalho de cerzidura, repare, passe os dedos por cima e diga-me se nota alguma diferença, é como se não tivesse acontecido nada, assim costumam falar as pessoas que se contentam com as aparências."
p. 182

12

"[...], É o que a morte tem de bom, com ela acaba-se tudo, Nem sempre é assim, logo começam as guerras entre os herdeiros, a ferocidade das partilhas, o imposto de sucessão que é preciso pagar, [...]"
p. 194

13

"[...], fiel no sentido, não tanto na forma, o que se compreende e desculpa, já que a memória, que é susceptível e não gosta de ser apanhada em falta, tende a preencher os esquecimentos com criações de realidade próprias, obviamente espúrias, mas mais ou menos contíguas aos factos de cujo acontecer só lhe havia ficado uma lembrança vaga, como o que resta da passagem duma sombra."
p. 201

14

"[...], Então diz-me também como poderia eu gostar de uma mulher a quem não conhecia, a quem nunca tinha visto, A pergunta é pertinente, sem dúvida, mas só tu é que poderás dar-lhe a resposta, Essa ideia não tem pés nem cabeça, É indiferente que tenha cabeça ou pés, falo-te doutra parte do corpo, do coração, esse que vocês dizem ser o motor e a sede dos afectos, Repito que não podia gostar de uma mulher que não conheço, que nunca vi, salvo em alguns retratos antigos, Querias vê-la, querias conhecê-la, e isso, concordes ou não, já era gostar, Fantasias de tecto, Fantasias tuas, de homem, não minhas, És pretensioso, crês que sabes tudo a meu respeito, Tudo, não, mas alguma coisa deverei ter aprendido depois de tantos anos de vida em comum, aposto que nunca tinhas pensado que tu e eu vivemos em comum, a grande diferença que há entre nós é que tu só me dás atenção quando precisas de conselhos e levantas os olhos cá para cima, ao passo que eu levo o tempo todo a olhar para ti, [...]"
p. 248

15


"[...], O que está para além da morte, nunca ninguém viu nem verá, de tantos que para lá foram, nunca nenhum voltou cá."
p. 252

16


"[...], Tudo se passou como se ela não tivesse feito mais do que abrir uma porta e sair, Ou entrar, Sim, ou entrar, conforme o ponto de vista, [...]"
p. 267

17


"[...], as aparências enganam muito, por isso lhes chamamos aparências, [...]"
p. 268




Todos os nomes / José Saramago. - São Paulo: Companhia das Letras, 1997. (2010)
ISBN: 978-85-7164-714-5  















A busca é mais importante que o encontro / Entre a vida e a morte não há o que lhes distinga que não seja a aparência.














19 de outubro de 2013 


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